23 de fevereiro de 2007

Nada

Levando-se em conta que o oposto a um ser nada mais é do que sua própria negação pode-se chegar à conclusão de que a negação de um não-ser passa a ser o próprio ser. Isso trabalhado no puro campo ontológico das essências, sem entrar nas categorias. Ao pensarmos o nada sob o ponto de vista epistemológico teremos que a pura capacidade de compreensão do nada passa a ser impossível ao nosso intelecto, assim como a tentativa de compreender o Infinito e o Absoluto. Um – nosso intelecto - se encontra no puro campo do medível, do logicamente associável, outro – o nada – se encontra no campo do incognoscível, para além da lógica. Como se uma pura denominação do “nada” já fosse aprisioná-lo sob algum conceito puro, como se a mais vã tentativa de definição do nada fosse fazer com que escapasse ao seu sentido a priori. Talvez o nada fosse o não pensar, a douta ignorância, a eterna inocência. Como Fernando Pessoa diz sempre nos meus ouvidos, olhos, boca e pele:
”Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar”

O nada é o amor. O amor é nada. Admitir que o amor não é nada é dizer que ele já é alguma coisa. Como dizer que “você não é ninguém pra mim” significa dizer que o “você” é alguém para o outro. Excelente, o nada não existe, mas só assim ele é nada.

Durante o processo de criação da linguagem, como meio de comunicação, expressão e inter-relação do “eu” com o mundo, o nada aparece não como um meio de apresentação de uma verdade já conhecida, mas, antes, meio de descoberta de uma verdade até então desconhecida. Trata-se então de algo progressivo, inerente a todo o processo dialético da história. Enfim, poderia escrever páginas e páginas sobre nada, e ainda assim encontraria leitores sedentos por descobrir um significado.

Como se houvesse muita metafísica em comer chocolates, pequena!

10 de dezembro de 2006

Do quarto - Parte II

Eu não sou o cara certo
Me dê uma garrafa de vinho, eu a beberei até jogar a garrafa vazia na vida, rindo dela
Mostre me a imagem de Jesus, e eu arrancarei seus pregos e furarei meus pulsos.

Mas eu! Sou um humano. Um desses estranhos seres que diferem-se mais entre si do que dos animais.

Ainda assim não sou o cara certo.
Posso rir da sua cara, posso tremer ao seu lado
Posso falar coisas bonitas, posso ficar decepcionado.

Porque não sou o cara certo.



Mas é muito provavel que eu esteja pensando em você agora.
E sorrindo por isso

15 de novembro de 2006

Do caderno - 1°

Para que eu possa (e eu vou)
Me perguntar se tudo valeu a pena,
E ter a confortável certeza que sim.

Para que eu possa
Olhar o sol nascer
E ter a certeza que mais alguém está fazendo isso.

Para que eu saiba que em qualquer canto do mundo
em que eu olhe,
haja sempre alguém
Sorrindo ou chorando por outrem.

E que a morte é mesmo
A angústia de quem vive
E a solidão também,
Apenas olhe para mim e sorria.

9 de novembro de 2006

Amigos

Amigos

Um dia a maioria de nós irá se separar.
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos,dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre... Hoje, não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve, cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, cada um segue a sua vida... talvez continuemos a nos encontrar quem sabe nos e-mails trocados.
Podemos nos telefonar, conversar algumas bobagens... Aí os dias vão passar, meses, anos, até este contato tornar-se cada vez mais raro.
Vamos nos perder no tempo....
Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas?
Diremos: Eram nossos amigos e isso vai doer tanto!
Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...
Quando o nosso grupo estiver incompleto, nos reuniremos para um último adeus de um amigo.
E entre lágrima nos abraçaremos. Faremos promessas de nos encontrar mais vezes, daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida isolada do passado. E nos perderemos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades....
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos
[Texto de autoria desconhecida]








Na foto: Os Maiores, em 2001. Tempo absurdo de rápido.

7 de novembro de 2006

(M) idiótica

Na sala assistindo TV:

- Olha! Que filme é esse?
-Não sei se é filme, acho que é um documentario sobre o Iraque.
-Parece reprise de "Platoon".
-Hm...não sei, esses mísseis cruzando a tela parecem ser tão reais.

".................BANG BANG"

- Isso!!! Matem todos eles!
-Isto é, se for de mentira.
-Droga. ALGUÉM PODE ME DIZER SE POSSO ME DIVERTIR OU NÃO?

Do quarto - Parte I

E tudo começou assim: ele naõ tinha mais sobre o que escrever. Se pegou olhando a folha em branco, separando o real do abstrato, misturando os verbos com o gosto do sal. Como se ja tivesse escrito sobre tudo, esgotado todos os temas, realizado todas as obras, se sentia vazio. Lhe sobrava naquele quarto-castelo vazio que era a sua mente o eco de uma música suave que entrava pelos ouvidos numa tentativa pífia de inspira-lo. Nenhum movimento.

Inspira-lo.

Espirou. Era isso que faltava. Como o olho sente falta do ver, como a pele sente falta do toque, ele sentia falta. Algo que o motivasse a escrever, a fabular, a brincar com as coisas, com as idéias, com os fatos. Percebeu que há tempos ninguém o surpreendia, ha tempos quase nada lhe tirava um sorriso surpreso, um sorriso menino, um sorriso de dentro. Era só o sorriso com medo, aquele que saia por pura obrigação de expressão. Clamava por detalhes, que alguém lhe trouxesse pequenos prazeres tal qual o som doce do por-do-sol.
"Me dêem prazer" gritava aos quatro ventos mas não o ouviam.
"Me faça, me crie, me seja, me veja, me pense, me sinta!".
Era tudo o que ele pedia para poder escrever, para poder sorrir. Sorrir.


26 de setembro de 2006

Asas inventadas

Hoje eu vi um pássaro e fiquei com inveja. Se eu tivesse asas e pudesse voar eu seria verdadeiramente livre, me realizaria. Então olhei pro pássaro e ele estava me olhando como dizendo "se eu pudesse falar seria verdadeiramente livre, me comunicaria e seria um ser completo, mas meu destino é ser levado pelo vento, de um lado pro outro, que inveja dos humanos." Talvez se eu tivesse asas, faria como Ícaro filho de Dédalo que ébrio por ter asas (mesmo que de cera) voou tão alto que o sol derreteu suas asas. O problema do homem é querer ter coisas desnecessárias, é criar necessidades que não existem. Parece assim que estão querendo negar a humanidade que lhe cabe. Criando essas necessidades o homem acaba se padronizando, negando assim da mesma maneira, a individuialidade. Todos iguais, catalogados, previsíveis. Talvez seja por isso que (quase) ninguém me surpreenda mais. Temos mania de darmos valor as coisas que apresentam um resultado imediato, efetivo, que atende às nossas necessidades imediatas. Isso é justificado pelo pragmatismo do homem, que move todas as coisas. Essa visão acabou criando engenheiros demais, advogados demais, cientistas demais, máquinas de mais. Após a revolução industrial foi criado um novo tipo de valor de homem, o tecnicista, que passou a ser adorado e idolatrado em seus valores. Talvez isso tudo venha do vazio existencial, o homem deve ter se deparado com a falta de respostas aos seus anseios, e passou a criar para tentar se comparar a um deus, a um criador, para se sentir menos ridículo perante a insignificância. Mas eu penso todos os dias para que nossos desejos falsos não se tornem nossos algozes, e não nos enforquemos em nossas próprias cordas, não sejamos Ícaros modernos e morramos pelos nossos desejos. Somos ridículos, mínimos, infames. Qual o problema em afirmar isso? Angústia? O que me causa angústia é olhar em volta e ver que tudo isso é falso, criado, artificial, que estou rodeado de ignorantes que fazem o possível pra continuar assim. Perante isso tudo, ver e admitir nossa natureza não me parece tão ruim.